Fotografo: Francisco Leal
...
Os laboratórios possibilitam os testes sem a necessidade de deslocamento para outros estados

“É uma satisfação muito grande quando vemos que o nosso trabalho resulta em algo que tem um impacto positivo na sociedade”, disse Afra Nascimento, que acabou de defender tese no programa de doutorado em Biotecnologia da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) em parceria com a Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio).

A pesquisa tratou sobre o desenvolvimento de membrana à base de colágeno e pólen apícola para aplicação biotecnológica e auxílio no tratamento de lesões cutâneas, que foi possível sua viabilização por conta da estrutura de laboratórios oferecida no Núcleo Interinstitucional de Estudo e Geração de Novas Tecnologias (Geratec) e no Núcleo de Pesquisa em Biotecnologia e Biodiversidade (NPBio).

Criados com o intuito de contribuir com a iniciativa científica de professores e estudantes pesquisadores, os laboratórios possibilitam os testes sem a necessidade de deslocamento para outros estados. O coordenador do NPBio, prof. dr. Antônio Maia Filho, explica sobre o trabalho realizado no núcleo. “Aqui no NPBio trabalhamos as pesquisas in vivo, na parte experimental utilizando animais. O núcleo tem um convênio com a Uespi e com universidades de Brasília, São Paulo, do Vale do Paraíba, de São José dos Campos, com a Universidade Estadual do Ceará, no qual, por meio desta, oferecemos o programa de mestrado dentro da nossa instituição, sendo parceira nucleadora e onde as aulas são realizadas. Com a Universidade Federal do Piauí temos a parceria com a Rede Nordeste de Biotecnologia, a Renorbio”, explicou o coordenador.

A Renorbio, criada para formar recursos humanos com sólida base científica a fim de suprir as demandas tanto do setor acadêmico como do setor empresarial, com vistas ao desenvolvimento tecnológico, vem fomentando o desenvolvimento da biotecnologia na região nordeste. A ideia é estabelecer e estimular a massa crítica de profissionais na região, com competência em biotecnologia e áreas afins, para executar projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Investigação (P&D&I) de importância para o desenvolvimento da região.

Prof. dr. Antônio Maia Filho

Segundo o professor, o NPBio tem evoluído bastante nas linhas de pesquisas de reparação tecidual e óssea. “Dentro da biotecnologia, nós trabalhamos muito na parte de reparação tanto de tecidos quanto óssea, motivado pelo grande número de acidentes que temos na nossa região. Então, há uma necessidade muito grande de materiais biocompatíveis, que possam acelerar esse processo de reparo. Utilizamos como princípio base produtos fitoterápicos naturais, como o pólen apícola, por exemplo, para a produção da membrana e utilização no processo de reparo tecidual. Além disso, temos outras membranas que estão sendo bem trabalhadas, com estudos publicados em revistas internacionais, como a produção dela com o poliestireno e a norbixina, substância retirada do urucum. Temos outros trabalhos bem avançados também na parte de reparo ósseo, misturando a norbixina ao polihidroxibutirato ou a membrana amniótica, substância encontrada na placenta de gestantes para o tratamento de lesões”, destacou Antônio Maia Filho.

Pesquisa com biomaterial para reparação tecidual

A pesquisa da Afra Nascimento está situada na linha de reparação tecidual, sendo de grande relevância social, motivada pelo número de acidentes de trânsito no estado e no país. Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesapi), em Teresina, cerca de 30% das internações hospitalares são de pessoas que sofreram acidentes de trânsito.

O orientador da pesquisa, prof. dr. Geraldo Luz falou sobre a motivação. “Esse trabalho foi idealizado por ela, que já vinha trabalhando no mestrado com a própolis e com o pólen apícola, mas na área de alimentação, no desenvolvimento de barras de cereais, e veio a intenção de dar uma nova utilização para o biomaterial, na área química, com a parte de cicatrização cutânea, muito motivado pela grande demanda no HUT, decorrente de acidentes de motos e queimados. Nesse sentido, propus a ela que fizesse um estudo com o extrato hidroalcoólico, ou seja, usando água e etanol para extrair os princípios ativos do pólen e mobilizar isso em uma membrana, no qual escolhemos o colágeno e testamos isso em vivo com ratos”, explicou o professor.

Pesquisador em laboratório

Para Afra, a pesquisa aumentou a perspectiva para o tratamento de lesões provocadas por diversas maneiras. “A motivação inicial da pesquisa era ajudar no tratamento de pessoas vítimas de acidentes, mas hoje temos um leque maior de possibilidades, como a população com diabetes, que possui uma dificuldade enorme de cicatrização, pessoas com queimaduras e cirurgiados”, disse a pesquisadora.

Ela conta ainda que o principal objetivo da pesquisa é o de auxiliar no tratamento das lesões cutâneas. “Nesse projeto, resolvemos avaliar a eficácia da membrana na aceleração do processo de cicatrização, um processo que é fisiológico, acontece naturalmente no organismo, mas dependendo da lesão, demanda um tempo longo. Então, o que estudamos foi justamente a aceleração desse processo para o indivíduo que está afetado e sentindo dor, assim, ele vai voltar à produtividade o mais rápido possível”, completa Nascimento.

Pesquisadora Afra Nascimento

O biomaterial vem da produção de um assentamento, no interior de Esperantina, que Afra já mantinha contato desde o mestrado e que vai beneficiar os produtores comercialmente. “Continuamos com essa parceria, pois os produtores também possuem o interesse de saber os benefícios que eles podem aproveitar comercialmente para o pólen. Eles me fornecem o produto e eu volto conhecimento. Eles fazem essa coleta para mim, fazem o beneficiamento do pólen e comercializam”, conta Afra.

Processo e resultados da pesquisa

Durante o processo, as substâncias do pólen foram extraídas e passou por um procedimento de preparação, como explica a doutora. “Não utilizamos o grão do pólen, mas sim as substâncias que são extraídas a partir do contato com a solução de etanol e água, concentramos para misturar com o colágeno para, no final, produzir a membrana. Esta, depois de secar, foi aplicada no rato, no qual existe um protocolo de autorização junto ao Comitê de Ética da universidade, que é justamente para se trabalhar de acordo com as leis nacionais e internacionais de manejo de animais de experimentação para não causar-lhes estresse e sofrimento. Nessa etapa, testamos as alterações de efeitos tóxicos e avaliação da atividade cicatrizante, que apresentou resultados positivos no período de 21 dias, comparando com os tratamentos utilizados atualmente”, acrescenta a pesquisadora.

Por conta dos resultados terem sido positivos, os pesquisadores já pensam em dar continuidade, progredindo para os testes em humanos. “Com uma única aplicação houve total cicatrização, os resultados demonstraram que não havia mais nenhum tecido inflamatório. Ao ponto que, com a pomada comercial, embora tenham promovido a cicatrização total, também no mesmo tempo, exigiu uma aplicação diária do produto e ao final desse período ainda havia pequenos núcleos inflamatórios nos tecidos, inclusive, já estamos pensando em dar um passo adiante e fazer um trabalho no programa de doutorado para testar a membrana em seres humanos, já que o trabalho com ratos indicou ser extremamente viável”, observou Geraldo Luz.

Pesquisador Geraldo Luz

Segundo o professor, o custo de produção do material é baixo. É importante frisar que, a membrana é completamente absorvida pelo corpo, gerando resíduo zero. “A utilização de um produto regional como o pólen apícola vai fazer com que haja uma agregação de valor a esse produto, que ainda é pouco explorado no estado do Piauí, mas que tem um potencial muito grande. Apenas os produtores da região norte do estado fazem coleta desse material e comercializam, mas sabemos que a região sul é que é a maior produtora apícola. Então, acredito que, com o desenvolvimento dessa pesquisa, agregando valor ao pólen, os produtores da região sul do estado também se interessem por fazer coleta de pólen apícola e passem a comercializar. Portanto, além do benefício direto para a população de acidentados no tratamento de lesões cutâneas, seja decorrente de acidente ou queimadura, e até mesmo da população diabética, pensamos em agregar valor a um produto regional”, afirma Geraldo.

Pesquisa busca desenvolver biomaterial para reparação óssea

Já, a pesquisa de Rayssaline Cardoso, doutoranda também pela Renorbio, é na área de reparação óssea. “Estamos buscando avaliar a regeneração óssea guiada com o biomaterial polihidroxibutirato, que é um polímero natural, e a norbixina, extraída de uma planta nativa na América do Sul, o urucum, ambos são compatíveis com os tecidos e bem aceitos pelo organismo. Os biomateriais já foram estudados separados com outros componentes e funcionaram muito bem, mas é a primeira vez que estão sendo estudados juntos. Tivemos acesso a ele por meio de uma empresa de São Paulo que o produz e cedem para a pesquisa, no qual recebemos em pó e desenvolvemos a membrana”, explica a pesquisadora.

Também motivada pelos índices de acidentados, a pesquisadora está desenvolvendo uma membrana para acelerar o processo de cicatrização de lesões no osso. “Considerando o alto índice de acidentes de trânsito, a gravidade desses acidentes, as doenças que a população está sujeita, bem como o alto índice de gastos hospitalares e o risco de rejeição dos materiais comumente utilizados, estamos buscando criar um biomaterial que possa ser compatível e bioabsorvível pelo organismo e que possa oferecer um efeito benéfico de regeneração óssea, induzindo aquele tecido a ter novamente a sua função”, conta Rayssilane.

Pesquisadora Rayssaline Cardoso

A gerente de Enfermagem do Hospital Getúlio Vargas (HGV), Cecília Viana, reitera que as pesquisas são positivas para a área da saúde. “Só traria benefícios aos nossos pacientes, pois o Hospital Getúlio Vargas tem 349 leitos e é um hospital de alta complexidade, no qual recebemos pacientes regulados, mas mesmo assim o hospital possui, em média, 80 pacientes por dia para fazer curativos de diversas modalidades, como vascular, de cirurgia geral, idoso acamado, ou seja, pacientes que o tempo de internação e recuperação é longo. Então, os resultados desse tipo de pesquisa irão proporcionar benefícios que, com certeza, irão beneficiar a população que está no hospital, que é tratada por feridas a nível ambulatorial porque vai ser mais rápido o processo de cicatrização, enquanto que os produtos que utilizamos no hospital são eficientes, porém tem uma resposta um pouco mais lenta do que está sendo feito com esse tipo de membrana”, diz a gerente.

Cecília Viana, gerente de Enfermagem do Hospital Getúlio Vargas (HGV)

 

Avanço da pós-graduação na Uespi

A pós-graduação da Uespi evoluiu nos últimos anos com a oferta de programas de especialização, de mestrado e doutorado. Antes de 2013, a instituição possuía apenas dois mestrados, hoje conta com seis em andamento e sete processos em tramitação em diferentes áreas, além de três doutorados interinstitucionais (Dinter), em parceria com outras instituições como a Universidade Federal do Piauí (UFPI), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFPI) e pela Renorbio.

De 2015 a 2019, a Uespi também passou a ofertar mais bolsas de pesquisas para os programas de pós-graduação, de 65 para 75 bolsas pela CNPq e de 120 a 130 bolsas pela própria instituição. Consequentemente, os projetos de pesquisas aumentaram, enquanto que a instituição, em 2010/2011 possuía 263 projetos, atualmente possui 399, com 29 grupos de pesquisa.

Pesquisadora em atividades laboratoriais

“Não fazemos uma pesquisa sozinha, é necessário ter parcerias e uma visão multiprofissional, ou seja, meu co-orientador é químico e me ajuda a ver a caracterização físico-química, no qual boa parte fizemos no IFPI. Já no núcleo, fizemos a implantação de caráter biológico, que são os testes em animais. Então, acredito que assim teremos resultados bem otimizados para a evolução da pesquisa no estado”, acrescenta Rayssilane.

Pesquisadora em laboratório (Francisco Leal

Pesquisadores (Francisco Leal)