Fotografo: Divulgação
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Primeiro Selo Brasil Certificado no Estado do Paraná

Em junho de 2019, a Staw Agricultura, de Ingrid Souza, recebeu o Selo Brasil Certificado, primeiro morango do Estado do Paraná a receber esse Selo do Ministério da Agricultura na produção integrada de morango - PIMo. Ingrid é a primeira mulher produtora a ser certificada no Brasil.

Ingrid conta que foram 3 anos de muito trabalho, dedicação e paixão em produzir da melhor maneira possível, respeitando o meio ambiente, praticando as boas práticas agrícolas, utilizando mecanismos de defesa naturais e biológicos para garantir um morango bonito, saboroso e principalmente seguro para o consumo.

Desde 2016 produz seguindo as normas, com auditorias, treinamento dos funcionários, adequação das instalações, incluindo banheiros e casas de embalagens. "Seguimos tudo à risca".

É necessário um investimento inicial maior, mais a divulgação do selo e do que ele oferece, além de mão de obra qualificada. Mas são muitas as vantagens. Além do cultivo com menos defensivos agrícolas, mudamos nosso sistema de irrigação, usando muito menos água, afirma Ingrid.

Ingrid Souza - Foto: Arquivo pessoal

A produtora buscou a certificação pensando primeiro como consumidora, preocupada com a procedência e a forma de produção. "Pesquisei o Selo e vi que ele garante rastreabilidade, que significa qualidade e segurança do morango. Como o mercado está mais exigente, o consumidor quer saber o que foi aplicado e como foi produzido. E com o Selo, conseguimos um valor agregado a um produto que usa tecnologias e boas práticas, garantindo um morango seguro", enfatiza Ingrid.

Desde o começo queríamos uma produção diferenciada e segura, por meio de tecnologias e manejo eficiente, produzindo praticamente o ano todo. As boas práticas agrícolas, o manejo e a higienização, tudo isso impacta positivamente na qualidade do morango e as pessoas percebem isso.

Não é fácil ter uma produção agrícola, só quem tem ou conhece sabe os desafios diários que enfrentamos para produzir. A agricultura ainda é dominada pelos homens. Enfrentei muitos preconceitos, como quando ia em feiras procurar por novas tecnologias e ninguém me atendia.

A natureza é imprevisível e ao mesmo tempo incrível, linda e perfeita e colhemos o que ela nos oferece. Estou muito feliz por ter conseguido a certificação.

As mulheres se destacaram no desenvolvimento participativo do Sistema de Produção Integrada de Morangos na região de Atibaia, São Paulo, lembra a pesquisadora da Embrapa Valéria Hammes, que participou da implantação desse sistema.

"A Macroeducação, método de educação ambiental, explica, foi aplicado para estabelecer a governança e a gestão da PIMo de forma participativa e contínua. Isto incentivou o estabelecimento de ações com a participação das esposas dos produtores familiares, tais como o acompanhamento nas capacitações dos produtores, a preparação das refeições dos eventos e o treinamento delas para o exercício de atividades agroindustriais. Além dessas, outras mulheres como pesquisadoras, empreendedoras, técnicas, estagiárias e professoras abrilhantaram essa história", recorda a pesquisadora.

Para a Dona Zilda Santos, a primeira produtora a fazer parte do Programa PIMo-SP, o programa, cujo enfoque é o plantio de morango com menor quantidade na aplicação de agrotóxicos, é muito importante. “Não uso nenhum agrotóxico em meu sítio em Atibaia e fiz questão de participar desse programa”, conta a produtora.

“No início, eu era a única mulher produtora e foi muito importante minha participação, pois a troca de informações, nos cursos e nas visitas, entre os produtores participantes do programa foi muito enriquecedora para a minha formação em agronomia”, acredita ela.

As visitas às propriedades onde pude ver as técnicas utilizadas por cada produtor também ajudaram no meu dia a dia, pois pude ver onde cometia erros e confirmaram meus acertos.

Dona Zilda esteve com esse grupo por 6 anos. Ela conta que, devido à idade, não tem comparecido ultimamente. “Continuo a plantar morango, até porque a Prefeitura de Atibaia me ajuda, além de outros produtores que me cedem as mudas sem custo, o que faz com que o município continue com a fama dos “morangos de Atibaia”.

"Estamos muito felizes e orgulhosos por termos a primeira produtora certificada oficial do Brasil, comemora Fagoni Calegario, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do programa PIMo-SP, o primeiro a certificar no ano de 2011. Considero que a Ingrid, esta jovem decidida e perseverante, representa a força e a importância da mulher em todas as conquistas e certificações anteriores.

"Como estamos há muito tempo desenvolvendo este sistema em parceria com agricultores, técnicos, prefeituras e instituições, temos contato com muitos familiares dos que participam, diz a pesquisadora. 

E Fagoni enfatiza que a presença e o apoio da família são fundamentais porque o agricultor adere de forma voluntária a um sistema de produção que traz muitas vantagens – a começar por sua própria saúde – mas necessita adaptações. "São produtores pioneiros, são “pontas de lança”, que acreditando nas boas práticas e na sustentabilidade, encaram novos desafios e por isso são grandes exemplos. A família que compra a ideia junto, certamente evita que o agricultor se sinta sozinho e desestimulado e por isso também é responsável pelos bons resultados e pela certificação. Todos merecem os parabéns".

A professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Renata Calegario, antes de ir para o Paraná, foi a primeira responsável técnica pelas lavouras da PIMo em São Paulo. Ela depois trabalhou com os produtores no Paraná, inclusive com a Ingrid.

“É muito significativo ver uma mulher no comando de um campo de produção no cenário agrícola, que é tão masculino. A cultura do morango demanda um manejo intensivo e isso demonstra a grande capacidade que temos em realizar os trabalhos. É curioso ver a presença marcante das mulheres na PIMo, ocupando posições fundamentais e importantes do projeto”.

E quanto à primeira certificação no Estado do Paraná, fico muito feliz porque há anos diversos trabalhos vêm sendo direcionados aos produtores visando qualificá-los para que pudessem colocar em prática as normas técnicas, comemora.

Para Renata, é importante salientar que, sem a vontade do próprio produtor, nada disso seria possível. “A união dos esforços entre pesquisadores, extensionistas e produtores reuniu o conhecimento científico e prático gerando as normas que hoje são aplicadas e que resultam na diminuição dos custos de produção e em um fruto mais seguro. Mas sem a adesão voluntária do produtor, nada acontece”.

A coordenadora do Programa PIMo-PR, Maria Aparecida Zawadneak, da UFPR, participou dessa certificação. Ela explica que as atividades de pesquisa focadas na produção de morangos sob sistema de produção integrada e as de extensão para difundi-las no Paraná estão sendo realizadas pela Universidade desde 2009.

Com o apoio de parceiros como a Emater PR e o sistema FAEP/Senar, durante estes 10 anos muitos produtores foram capacitados nas alternativas ao sistema convencional de produção de morangos.

"As boas práticas agrícolas já foram implantadas em várias propriedades, informa a coordenadora. Agora, com a primeira certificação pela Staw Agricultura, outros produtores verão que a PIMo é viável e trará benefícios diretos na qualidade e segurança de morangos ofertados no mercado, além de racionalizar o uso de agrotóxicos, estimular o equilíbrio do ecossistema e obter a organização da propriedade", comemora.

Valmor Rovaris, superintendente da Associação Paranaense de Supermercados (APRAS), parabeniza a primeira produtora certificada no estado, lembrando a importância de se ter um produto premium, como é o produto com selo Brasil Certificado, que oferece muito mais qualidade, segurança e durabilidade para o consumidor por um preço próximo ao do produto tradicional. “Para o setor supermercadista, a maior durabilidade do produto na prateleira se transforma automaticamente em lucros”, explica Rovaris.

“Se o morango com selo tiver um dia a mais de shelf life ou vida de prateleira, haverá, em média, 20% de redução de perdas, que no caso do morango representa 1,5% de margem de lucro adicional”, calcula.

Além da presença das mulheres, a produção integrada de morango tem a capacidade de reunir uma grande quantidade de pessoas muito jovens envolvidas na certificação, o que ajuda a manter a mão-de-obra no campo, evitar o êxodo rural, além de garantir prosperidade para as novas gerações. É o caso dos primos Tiago e Mateus Andreazza, jovens empresários de duas grandes empresas certificados do Rio Grande do Sul.

Para Tiago Andreazza, da Dante Andreazza Comércio de Frutas, a certificação trouxe credibilidade, segurança para os clientes e para os produtores. “Buscamos certificar o que já fazíamos, confirmar o trabalho consciente e sério com o qual sempre tratamos nosso negócio”. Tiago conta que esperava que o mercado de uma forma geral demonstrasse maior importância e preocupação com esse tema.

Conforme Mateus Andreazza, da Granja Andreazza, sua empresa tem por princípio investir na qualidade de seus produtos, oferecendo aos clientes tecnologia avançada e respeito ao consumidor.  "Com o objetivo de imprimir ainda mais confiança no nosso produto, buscamos a certificação, que garante mais segurança na cadeia produtiva por meio de um manejo adequado".

Para se obter a certificação, uma das primeiras etapas é ter um responsável técnico, que pode ser um engenheiro agrônomo ou técnico agrícola com habilitação para acompanhar as propriedades. No caso da Staw Agricultura, a responsabilidade técnica ficou a cargo de Hugo Vidal, um engenheiro agrônomo com vasta experiência na cultura, inclusive tendo colaborado intensamente no programa PIMo-SP.

Hugo Vidal trabalha com a cultura do morangueiro há 30 anos. Ele conta que as dificuldades do passado eram falta de qualidade das mudas, baixo nível tecnológico e falta de insumos adequados tanto para nutrição quanto para o controle fitossanitário das pragas e doenças que acometiam a cultura, tornando o morangueiro um vilão pelo uso necessário, porém, irregular de agrotóxicos pela legislação brasileira.

"A introdução de novas cultivares e implantação das normas para as culturas de suporte fitossanitário insuficiente (CSFI ou “Minor Crops”) tornou possível produzir de forma mais sustentável e buscar uma certificação como a PI morangos para se diferenciar no mercado.
Os produtores Ingrid e seu pai, Antônio Benedito de Souza, da Staw Agricultura, iniciaram o cultivo de morangos sempre com acompanhamento de assessoria técnica, já com um foco em serem destaque, primando pela qualidade, eficiência e sanidade da cultura, a fim atender um mercado consumidor cada vez mais exigente por boa qualidade e disposto a pagar por esse benefício".

"Estou feliz por fazer parte dessa conquista que tiveram. Acredito que se tornará um estímulo para outros agricultores trilharem esse caminho que, pela seriedade da aplicação das boas práticas agrícolas, oferece ao consumidor um alimento seguro, comemora.

Segundo ele, como a empresa já mantinha cuidados com a sua produção, a adequação às novas normas foi relativamente tranquila, apenas aprimorando as maneiras de cultivo já utilizadas.

"A gente espera que com a certificação, o consumir final saiba que está adquirindo um produto diferenciado e, acima de tudo, um alimento seguro".

Para Rosa Sanhueza, coordenadora do primeiro programa certificado no Brasil no início dos anos 2000, a produção integrada de maçã (PI Maçã), é importante ver que esse exemplo que foi dado no sul inicialmente esteja sendo seguido por outras cadeias, principalmente aquelas que têm necessidade de justificar seus processos, com uma operação nova do uso e indicativos de manejo de doenças e pragas. "É um caminho difícil de ser trilhado principalmente porque exige muita organização e capacitação técnica contínua. O sucesso dessa produtora é um bom momento para destacar o trabalho feito na produção integrada de morango".

O reconhecimento desse sistema passa obrigatoriamente pelo reconhecimento do mercado e das instituições federais que devem ser as pontes que vão suportá-lo. Apesar de ser uma legislação federal, esse sistema não é favorecido especificamente pelo governo, como em outros países europeus que o mantém. Nesse momento, o governo deve de alguma forma estimular a produção integrada, seja com isenção de impostos ou de maior garantia para empréstimos para atualizar a produção. O apoio do governo ao setor produtivo organizado será importante para promover o reconhecimento da PIMo em supermercados. É necessário que se possa vender os produtos com selo Brasil Certificado em gôndolas separadas como já acontece na Europa com as frutas certificadas. É necessário que haja o produto em quantidade para abastecer os supermercados de forma suficiente e permanentemente. Para isso é necessário o apoio do governo em políticas públicas.

"Na maçã, não tem ocorrido a certificação maciça como no início. Isso porque não há o reconhecimento no mercado interno ou internacional da PI como sinônimo de controle eficaz do sistema de produção, tanto na parte ambiental, social como de resíduos de pesticidas.

Rosa lembra que, na elaboração inicial da norma foi usado o regulamento da produção integrada da Europa. "Testamos o modelo e ajustamos de acordo com as condições do Brasil. Depois de três anos, emitimos a norma oficial, publicada pelo Mapa para dar fundamento à certificação e dar bases para auditorias do Inmetro".

Tudo isso começou na década de 90, com a participação de pesquisadores brasileiros em congressos de instituições que promovem a luta pelo controle biológico de pragas e doenças. Na Europa já havia a obrigação de se produzir na forma de produção integrada. Até hoje esse sistema vigora com portarias oficiais. "Organizamos uma rede de instituições, produtores, técnicos com capacidade técnica para capacitar esse sistema no Brasil". E hoje vemos os resultados no setor produtivo do morango.

Marcus Martins, Coordenador de Produção Integrada da Cadeia Agrícola do Mapa, comemorou o duplo pioneirismo de Ingrid: por ser mulher e por inaugurar a certificação do morango no Estado do Paraná. “O que pudermos fazer para que o trabalho dela tenha sucesso, nós faremos, inclusive estamos estudando um evento em São Paulo sobre a produção integrada de morango, de modo a premiar e valorizar os produtores certificados e com certeza a Ingrid estará no rol dos premiados.

Ao mesmo tempo, o Mapa também tem uma linha específica de apoio a ações de gênero, então podemos tentar conciliar as ações da PI Morango da Ingrid com o viés ligado ao gênero feminino, de modo que se valorize ainda mais o trabalho dela.

Veja o video da PIMo em https://youtu.be/NLtxytAv3PE


Onde encontrar morangos com selo Brasil Certificado:

Associação dos Produtores de Morangos e Hortifrutigranjeiros de Atibaia, Jarinu e Região
(11) 4417-1097 – São Paulo
associacao.morango@gmail.com

Dante Andreazza Comércio de Frutas – Rio Grande do Sul
(054) 3504-9083
contato@danteandreazza.com.br

Granja Andreazza – Rio Grande do Sul
(54) 3266-1132
contato@granjaandreazza.com

Staw Agricultura – Paraná
(15) 98131-8923
ingrid@stawagricultura.com.br

 

Cristina Tordin (MTB 28499)
Embrapa Meio Ambiente