Fotografo: Divulgação
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Balanço de Gases de Efeito Estufa na produção de peixes em tanques-rede

Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP) reuniram-se, no dia 23 de setembro, com produtores e  representantes do setor de pescado para apresentar os resultados parciais do monitoramento do balanço de Gases de Efeito Estufa (GEE), por influência da piscicultura na produção de peixes em tanques-rede no reservatório de Ilha Solteira, SP/MS. 

As ações de pesquisa voltadas ao monitoramento ambiental da atividade são componentes do Plano de Ação 05 do Projeto BRS Aqua, que busca quantificar e determinar a influência da piscicultura para o balanço global de GEE, analisar os principais fatores biológicos, físicos e químicos que influenciam a emissão/absorção de GEE em áreas de produção aquícola e, por fim, criar um banco de dados para melhoria de modelos de cenários regionais de mudanças climáticas e inventários de Análise de Ciclo de Vida (ACV) para consulta do setor produtivo e para a sociedade. 

O BRS Aqua é o maior projeto de pesquisa na área aquícola executado pela Embrapa atualmente e que visa organizar e tornar o setor mais competitivo.

A reunião aconteceu de forma virtual em função das ações de prevenção à Covid -19 e foi conduzida por Paula Packer, chefe-adjunta de Transferência de Tecnologia da Unidade, e por Marcelo Gomes, bolsista de Desenvolvimento Tecnológico e Industrial (DTI - A do CNPq), vinculado ao Projeto BRS Aqua. 

Participaram representantes das pisciculturas Royal Fish, More, Puro Peixe e GeneSeas, além de Juliana Lopes, coordenadora de Ordenamento e Desenvolvimento da Aquicultura em Águas da União da Secretaria de Aquicultura e Pesca (SAP/Mapa),  e de Marilza Fernandes, representante da Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBR).

Gomes explicou que apresentar os dados parciais do balanço de GEE era uma demanda recorrente dos produtores. "Quando vamos a campo no reservatório, eles perguntam, mostram-se interessados em conhecer o que acontece, relacionado a essa dinâmica. Como já possuímos resultados preliminares interessantes, resolvemos apresentá-los aos produtores."

Ele, contudo, lembra que os resultados são parciais e que a análise geral dos dados continua sendo realizada. Na linha do tempo do monitoramento, as campanhas de coleta começaram em julho de 2018 e terminaram no mês de setembro de 2019, período em que se iniciou a análise técnica dos dados, apresentados agora.

 

O que foi verificado

Os gases considerados nas áreas dos tanques-rede são o metano, dióxido de carbono e óxido nitroso. O estudo realiza um levantamento de parâmetros, considerando além dos gases, temperatura, sedimentos, turbidez e outros.

No caso do metano, o estudo apontou um aumento de emissão de CH4 nos tanques-rede em todas as áreas, com valores elevados na forma de bolhas. Contudo, as bolhas não ocorreram em toda a área dos tanques. Os pesquisadores já determinaram estatisticamente que o aumento do metano está diretamente associado à atividade, contudo, verificou-se que a influência diminui à jusante, na proporção de 1 a 2 km.

Já os dados referentes ao dióxido de carbono (CO2), a análise preliminar não apresentou influência do manejo significativa, com valores de bolhas menores que difusivos. Nesse caso, a análise de parâmetros e estatísticas ainda estão em andamento.

Por fim, as análises de óxido nitroso (N2O), apenas uma área apresentou o aumento nos tanques, o que torna inconclusiva a influência do manejo para este gás. 

Gomes explica que já é possível, com os resultados parciais, concluir que o aumento da emissão de metano nas áreas dos tanques-rede pode ser associado à piscicultura, mas que essa influência é pontual e não se propaga à jusante. 

"A área de tanques rede é pequena, quando comparada ao tamanho do reservatório. Outro fator que devemos considerar é a quantidade de proteína animal produzida nesses tanques, em função do aumento de emissão. Se compararmos as emissões referentes à uma tonelada de pescado com a mesma quantidade de proteína produzida por outras cadeias, como a bovinocultura ou a suinocultura, vemos uma atividade com viés de sustentabilidade na aquicultura. Por isso é importante monitorar o ambiente produtivo, já que dispomos de poucos dados nessa área".

Monitorar é vital

A produtora Estela Megiani exaltou a divulgação dos resultados e ressaltou que esses estudos são importantes, à medida que ajudam o produtor nas tomadas de decisão. Já Juliana Lopes (SAP/Mapa), destacou que o monitoramento constante vai permitir sabermos qual o real impacto ambiental da atividade, uma vez que ainda não há dados confiáveis disponíveis. 

“Já sabemos que alguns impactos são reversíveis, mas por quanto tempo? Esta e outras perguntas deverão ser respondidas pela ciência, por meio de um monitoramento robusto, em tempo real e que vai  fornecer uma escala de resultados ao longo do tempo, com um real entendimento do que está acontecendo com a piscicultura,” concluiu.

Paula Packer da Embrapa lembrou que os dados obtidos pelo PA 05 em Ilha Solteira já embasam o desenvolvimento de novos equipamentos e sensores de monitoramento por equipes da Embrapa no Projeto, tornando-os mais eficientes, mais adequados e de menor custo. Para esse estudo, foram considerados os fatores geofísicos para entender a dinâmica dos gases. Para isso, foram utilizadas câmeras estáticas, funis coletores de fluxo ebulitivo, sondas multiparâmetro e coletas de sedimento em profundidade.

“As soluções são construídas em conjunto, portanto, o feed back do setor produtivo é importante, uma vez que as melhores soluções quase nunca saem somente das cabeças dos pesquisadores, mas dessa interação com o setor. Daí nasceu a ideia de compartilhar esses resultados, ainda que parciais".

Marcos Vicente (MTB 19.027 MG)
Embrapa Meio Ambiente